domingo, 24 de janeiro de 2010

Avatar para a Tropa

AVATAR PARA A TROPA
Recrutas no cinema
Alunos recém-aprovados em concurso para PMs tiveram uma aula diferente ontem em Porto Alegre
O que os Na’vi, um povo que luta contra a exploração de uma mineradora disposta a extrair os recursos naturais de seu planeta, têm a ver com a segurança pública em Porto Alegre? – Tudo – responde o major Aroldo Medina, professor da Academia da Brigada Militar, para quem a função da corporação nas ruas não é “combater inimigos”.
Ontem, Medina levou 120 alunos soldados lotados no 9º Batalhão da Polícia Militar – responsável pelo policiamento de 17 bairros da Capital, entre eles o Centro – para assistir a Avatar, a milionária produção de Jame
s Cameron, que lota cinemas mundo afora. Em tecnologia 3D, a história aborda os conflitos éticos envolvendo nativos de Pandora, um país fictício, que vivem em harmonia com a natureza, e a ganância dos humanos, dispostos a derrubar florestas, extrair minérios e subjugar o povo. A tônica do sucesso hollywoodiano é a defesa dos recursos naturais e o embate pela vida.
Mais de uma centena de jovens soldados acomodaram-se nas poltronas confortáveis do CineSystem do Shopping Total. No lugar de revólveres e pistolas, óculos para projeção 3D. Cadernos e apostilas são substituídos por sacos de pipoca e copos de refrigerante. Cento e oitenta e nove minutos depois, Felipe Ilha Dutra, 22 anos, é um dos primeiros a sair. Natural de Santa Maria, está entusiasmado.

– A força e a união dos Na´vi em defesa do ambiente são
um exemplo para nós – diz Dutra, que pela primeira vez assiste a uma projeção em 3D.
O acompanham Jaqueline Angelin, Vitor Felix Garcia e Samuel Lopes Rodrigues – todos jovens recrutas, todos interioranos, todos dispostos a combater o crime. Nascido há 25 anos em Dom Pedrito, na Campanha, Rodrigues relaciona a disputa pelas riquezas da floresta com a ação dos traficantes, que dominam vilas e subjugam inocentes.
– Precisamos conquistar a confiança da população para expulsar o tráfico, que explora as comunidades. É o que os Na’vi fizeram para defender a sobrevivência deles – diz Rodrigues.

Natural de Tucunduva, Jaqueline acha que a mediação de conflito, como ensina o filme, tem um papel central:

– Pode nos ajudar a recuperar a imagem da corporação.

Há 12 anos na BM, o sargento Edgar Ricardo da Silva acompanha à distância os novatos.
Satisfeito com o que acaba de assistir, Silva acha que ao mostrar Jake, um veterano de guerra paraplégico, mudar de lado e defender o povo da floresta, o filme cumpre um objetivo central nos dias atuais:
– Mostra que há dois tipos de soldados: os que só obedecem e os que pensam. Precisamos dos que pensam. Professor de história da BM, o major Medina acredita que o filme ajuda a treinar PMs para mediar conflitos: – Espero que o soldado se identifique com os Na’vis, que respeitam a natureza e vivem em harmonia. Queremos formar soldados do meio ambiente, da democracia, da paz. Pesquisador alerta para uma formação mais ampla Atividades complementares qualificam, aos poucos, a formação de policiais. O que é bom, mas insuficiente, opina Alex Niche Teixeira, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Violência e Cidadania da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Para o professor, assistir a um filme e depois debatê-lo, não é suficiente para tornar uma polícia menos violenta: – Precisamos de uma formação mais ampla, que envolva outras disciplinas, em outros espaços da formação, que reproduzam mais uma visão de direitos humanos e menos de combate. A atividade complementar ao filme também será longe das ruas. – Vamos debater em sala de aula e escrever uma redação – avisa Medina.
Fonte: ZH/CARLOS ETCHICHURY
Imagem: Fernando Gomes
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