terça-feira, 18 de agosto de 2009

Porto Alegre: Matrix e Pontal do Estaleiro

Imagens: Internet Porto Alegre: Matrix e Pontal do Estaleiro
No filme Matrix, dirigido e roteirizado pelos irmãos Andy e Larry Wachowski, há 10 anos, a questão filosófica central era: O que é o real?

Num determinado momento do filme, há o encontro para explicar que o mundo no qual se vive não é o mundo real e verdadeiro. Essa possibilidade de explicação é dada pela escolha da pílula azul ou a vermelha. Tomando a azul, volta à ilusória e superficial vida; se optar pela pílula vermelha, conhece a verdade que está por detrás do mundo que julga ser real.

Por essas ironias da vida, a liberdade poética permite traçar uma analogia entre Porto Alegre: Matrix e o Pontal do Estaleiro. A Matrix é o projeto virtual apresentado pelos empreendedores à população da cidade, vendendo uma ilusão de “progresso” e “desenvolvimento”. Matrix é arregimentar uma bancada de vereadores para aprovar Lei Complementar, em regime de urgência, num processo crivado de irregularidades e suspeitas de propina.
Matrix é permitir a alteração do uso comercial da área, para uso misto (comercial e residencial), numa canetada. Matrix é ver terreno leiloado por R$ 7 milhões pelo Município - para pagar passivo trabalhista aos ex-funcionários do Estaleiro Só - passar a valer algo em torno de R$ 70 milhões. Pra quem não sabe, é a finalidade de uso que determina o valor territorial de uma área, urbana ou rural. No contexto da Matrix, o vereador Valter Nagelstein (PMDB), líder do governo municipal na Câmara, declara: "Quando olho para o Pontal, pergunto-me o quanto a cidade vai ganhar com o empreendimento e não quanto o empresário vai ganhar com a obra". Como cidadãos, contrapormos: quando olhamos para o Pontal, perguntamos quanto à cidade deixou de ganhar em benefício de um único empreendedor. Resposta: R$ 63 milhões.

O digníssimo vereador vai além, ao dizer que muitos argumentos contrários beiram o irracionalismo e o discurso fácil. "Precisamos afirmar a livre iniciativa, o empreendedorismo e garantir a população à geração de trabalho e renda". Perguntas dos cidadãos: Afirmar a livre iniciativa de o poder privado especular sobre área pública, contra as próprias leis da livre concorrência de mercado? Afirmar o empreendedorismo sob os auspícios do poder público em desrespeito à Lei Orgânica Municipal, Código Estadual do Meio Ambiente e a própria Constituição Federal? E para quê mesmo? Para transformar área de preservação permanente em Playground privado de prédios para apartamentos de alto luxo, com vista para orla do maior patrimônio natural de Porto Alegre? Isso é Matrix. Portanto, nessa lógica, os argumentos que beiram ao irracionalismo são: a Lei Orgânica de Porto Alegre, que determina que as áreas próximas às margens de rios ou cursos d’água são de proteção permanente. O Código Estadual do Meio Ambiente. A Constituição Federal, no caput do seu artigo 225, que prevê o direito coletivo ao meio ambiente, bem como o dever de todos em defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Realmente, é um discurso fácil, quase banal.

Quanto, a saber, à qual população garantir geração de trabalho e renda, cabe supor se tratar da população de empreiteiras, no mundo, que acorrerão à capital gaúcha, para montar escritórios e contratar consultorias junto a Câmara Municipal de Porto Alegre.
Sim, somos realmente modernos. Acreditamos piamente no “progresso pra burguesia e ordem pra malandragem”. Afinal, enquanto uma maioria de famílias vive em condições de marginalidade, sem regularização fundiária e urbanização de favelas que garanta o título de propriedade do terreno em que vivem, há gerações, ou a dignidade do endereço pra abrir uma conta no banco ou receber uma carta. Enquanto centenas de jovens e adolescentes espalham pela cidade a revolta produzida por décadas de prevalência dos interesses individuais e privados sobre os interesses sociais e públicos, traduzida em violência, assaltos, prostituição e drogadição. Uma minoria quer morar às margens do rio, lago ou mar.
Essa é a nossa Matrix: que pontualmente atende pelo nome de Pontal do Estaleiro. Onde querem crer que prédios residências vão garantir segurança 24 horas contra esses que estão à margem da sociedade. Qualquer problema: cercas elétricas e segurança privada. Afinal, a segurança pública, os agentes públicos, os servidores públicos não servem pra nada mesmo. No máximo, para atrapalhar ou facilitar negócios milionários em benefício do capital privado e de caixas dois de campanha. Vide o próprio caso em questão.
Eis a nossa Matrix: Votar SIM ou Não Votar é tomar a pílula Azul. Votar NÃO ao projeto do Pontal do Estaleiro é tomar a pílula vermelha.
Qual pílula a população de Porto Alegre escolhe?
Por João Volino Corrêa
Presidente da AMA
Associação dos Moradores e Amigos da Auxiliadora
Fonte: recebido por e-mail

2 comentários:

eduino disse...

PARABÉNS JOÃO ! ! !

TEMOS QUE DISPONIBILIZAR A PÍLULA VERMELHA PARA TODOS OS PODERES PÚBLICO DA FEDERAÇÃO BRASILEIRA !

NO PRIMEIRO MOMENTO :
AO SENADO E AO CONGRESSO NACIONAL.

eduino de mattos
porto alegre-rs brasil

Francisco Marshall disse...

Tchê, apesar dos preconceitos contra a livre iniciativa, que me soam meio cafonas (...eu ao menos admiro muito a liberdade e o empreendedorismo), teu artigo está interessante. Só que eu acho esta uma falsa discussão. Penso que qualquer empreendimento ali poderá ser muito bom, mesmo com uso habitacional, se possuir rigorosa certificação ambiental e uma estética à altura da belíssima paisagem lacustre. então, o que devemos exigir é esta certificação, de preferência por organismo externo e internacional.